sábado, 10 de novembro de 2018

Era uma vez uma moça bonita e burra

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Por Letícia Gicovate

Roteiristas se reviram pra criar histórias rocambolescas, personagens inverossímeis e finais mais previsíveis que a alta do dólar. Enquanto isso, uma atriz viveu por décadas uma história que a ficção não ousaria inventar.

Você provavelmente nunca ouviu falar dela. Hedy Lamarr poderia ter ficado congelada num pôster velho se sua história não tivesse sido reabilitada através de uma de suas invenções, a tecnologia que deu origem ao wi-fi (aqui vale acender uma vela).

Filha de um banqueiro austríaco, criada na fina flor da comunidade judaica e recém-formada pela Berlin Acting School, Eva Maria Kiesler chocou a sociedade ao estrelar a primeira cena de orgasmo do cinema, além de um belíssimo nu frontal, aos 19 anos de idade, em 1934.

O próximo passo foi previsível pra época: a escandalosa atriz se casou com um rico empresário e foi viver numa mansão aristocrática, mas não durou muito. Relegada a bibelô de luxo, vendo o marido estreitar relações com o nazismo, enclausurada e infeliz, numa noite ela dopou o cara, escondeu todas as joias sob a roupa e fugiu do país.




Em Londres conheceu Louis B. Mayer, com quem negociou um contrato extravagante sem falar uma palavra de inglês. Chegou na América como Hedy Lamarr, a nova promessa da MGM.

Misteriosa, elegante e absurdamente bela, Hedy caiu como uma luva nos padrões cretinos de Hollywood. Enquadrada num dos arquétipos que a indústria vendia como sendo os únicos cedidos às mulheres, ela brilhou como um tipo aristocrático, sedutor e enigmático. Seu rosto foi eternizado no desenho Branca de Neve, a primeira princesa da Disney – para o qual serviu de inspiração.

“Qualquer mulher pode ser glamourosa, basta ficar parada e parecer estúpida”, ela dizia.

Apesar das longas horas nos sets, Hedy continuava se dedicando a estudar ciências, sua paixão de infância. Seu hobby era se fechar num laboratório pra fazer experimentos e testar invenções. Algumas eram bem boas.

Deve ter sido oportuna a amizade colorida com o inventor, aviador e produtor de cinema Howard Hughes. Nas horas vagas Hedy recriou as asas dos aviões do magnata, depois de estudar desenhos de pássaros, dando a forma que são usadas até hoje.

E assim, ela criou o wi-fi!

Sufocada pela obrigação de ser uma estátua, e sabendo-se potente pra cacete, ela pensou em largar a carreira e se oferecer ao Inventors’ Council, mas foi ridicularizada.

Então, no auge da Segunda Guerra, inconformada de não poder ajudar, juntou-se ao pianista George Antheil e usando a tecnologia do controle remoto e a frequência das notas de piano, eles criaram um sistema que desordenava as ondas que guiavam os torpedos. Isso fazia com que os projéteis não pudessem ser reconhecidos pelos radares inimigos.

Foi essa tecnologia que com um pequeno twist nos levou ao Bluetooth, ao GPS e, finalmente, ao wi-fi. Apenas.

A Marinha Americana recebeu a estrela com aquele ranço de condescendência e burrice (machismo), e sugeriu que ela fosse dançar pras tropas se quisesse ajudar.

Por ironia ou patriotismo, por humilhação ou vaidade, foi o que ela fez. Passou então a visitar as tropas e a ser só o que queriam que ela fosse.

Nessa época a atriz vivia seu quarto ou quinto casamento, ainda haveria mais um, e assistia à atrizes mais belas e frescas conquistando a indústria, já tão viciada em juventude. Amargurada, mas ainda belíssima, estrelou o que viria a ser seu maior e último sucesso, Sansão e Dalila, de Cecil B. DeMille.

Com a rapa do sucesso, Hedy Lamarr produziu e dirigiu filmes com grandes personagens femininos, mulheres fortes e independentes. E perdeu dinheiro pra caramba. Parecia não haver mesmo jeito de Hedy ser tudo o que era.

Em declínio, ela passava seu tempo entre maridos, plásticas, aparições cretinas na TV e maluquices. Uma vez foi presa por roubar roupas – isso muito antes de Winona, vanguarda absoluta.

Foi em 1962 que a Marinha descobriu sua grande invenção nos arquivos do Exército, e suas ideias começaram a ser aplicadas nos navios americanos. Como a patente já havia vencido, Hedy nunca viu a cor do dinheiro que merecia.

Foram necessários mais 50 anos para ser reconhecida e premiada com o Eletronic Frontier Foundation Pioneer Award, o “Oscar” da ciência contemporânea. Quando isso finalmente aconteceu, Hedy Lamarr vivia sozinha e reclusa, com o rosto deformado por inúmeras plásticas, se comunicando com o mundo exclusivamente pelo telefone.

Ela morreu no ano 2000, aos 85 anos, e ninguém nunca mais viu seu rosto.

A história de Hedy Lamarr é contada no documentário “Bombshell: The Hedy Lamarr Story”, dirigido por Alexandra Dean e produzido por Susan Sarandon (que infelizmente ainda não estreou no Brasil). Mas, apesar deste pequeníssimo spoiler, assim que tiver uma oportunidade, assista!