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domingo, 24 de maio de 2020

Discurso, Poder e Resistência à Violência contra a Mulher Negra

Por Ady Canário*

“Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela, porque tudo é desestabilizado a partir da base da pirâmide social onde se encontram as mulheres negras.” 
                                                                                        (Angela Davis)

Em 13 de maio de 1888, com a Lei Áurea, tivemos o momento histórico da abolição da escravatura no Brasil, forjando discursos e relações de poder. Esse marco foi muito importante no processo de luta dos negros e das negras pela libertação de seus corpos escravizados. A data foi ressignificada pelo Movimento Negro e o 13 de maio passa a ser interpretado como “Dia Nacional de Luta contra o Racismo”, por conseguinte, o 20 de novembro, celebrado “Dia da Consciência Negra”.

Tal acontecimento compreende um longo período de construção da luta do povo negro. No entanto, essa libertação não trouxe consigo a inserção social dos negros e negras. Libertos, porém, ainda entregues à própria sorte, sobretudo as mulheres negras afetadas pela desumana escravidão, mulheres as quais continuam, bravamente, resistindo frente à violência do racismo nos dias atuais.

Além disso, o discurso da abolição passa a se configurar na ideologia do branqueamento e em torno da concepção do mito da democracia racial. Tal discurso acaba se deslocando para um modelo desigual de tratamento do negro e da negra como inferior, da sociedade escravocrata à capitalista atual, regido pelo funcionamento do poder entre negros e brancos.

Porém, a população negra continua renovando suas variadas possibilidades de resistência contra toda forma de opressão, lutando democraticamente pela sua emancipação, como protagonista de sua própria história. Ademais, o sujeito negro segue sua luta, a fim de garantir a efetivação das políticas públicas de ações afirmativas necessárias e, principalmente, atualizar os mecanismos de enfrentamento ao racismo, ao genocídio e à discriminação racial perante a desigualdade racial. E, neste maio, considerado o mês da África, quando se rememora a abolição da escravatura, é fundamental entendermos seus efeitos de sentido, objetivando uma educação antirracista com a participação de toda a sociedade e ações inclusivas

(Arte: web/ autor não identificado)
Nesse contexto, cremos que o enfrentamento à violência racista contra as mulheres negras na intersecção de raça e classe, desafia-nos a pensar em um outro modelo de sociedade. Uma sociedade mais justa e igualitária para todos. Com mais amor e menos ódio, sobretudo, às pessoas negras em situação de vulnerabilidade social, evidentemente mais afetadas pela morte diariamente em decorrência de crises na estrutura de sistemas econômicos/políticos e da violência.

Apesar da abolição, a população negra não se sente verdadeiramente liberta, pois o sentido de propriedade persiste, especialmente, das mulheres negras. O pensamento de que a escravidão do Brasil Colônia ao Império é culpa das guerras tribais africanas reside na infâmia. São 132 anos da abolição contra 350 anos da escravidão, ferida na bandeira brasileira. Ainda temos muito a superar e conquistar.

Os financiadores e compradores de mão de obra escrava são brancos, europeus, ocidentais cristãos e seus descendentes. Seus pensamentos prevalecem! Prova de que o racismo estrutural é fruto disso e nada mais.

E, neste momento de distanciamento social que enfrentamos, uma maioria se recusa a compreender a violência racista contra as mulheres negras, alegando que não existe racismo. Até quando? Contudo, mulheres negras resistem contra os dispositivos discursivos de dominação, o racismo, o machismo e a violência. É no âmbito da resistência que as vidas das mulheres negras importam! Pelo direito à vida!

(Imagem: redes sociais)
*Ady Canário de Souza Estevão, Graduada em Letras pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte-UERN. Mestra e Doutora em Estudos da Linguagem, área de Linguística Aplicada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte-UFRN e professora da Universidade Federal Rural do Semi-Árido-UFERSA, Curso de Licenciatura Interdisciplinar em Educação do Campo-LEDOC, Departamento de Ciências Humanas-DCH. Líder do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação, Discursos e Sociedade-GEPEDS. Organizadora do Coletivo NEGRAS – Núcleo de Estudos de Gênero, Relações Étnico-raciais, Aprendizagens e Saberes.

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