A "mulher de malandro" e a misoginia brasileira

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Para bem tornar crível a existência de justificativas para a violência contra as mulheres nossa sociedade cria figuras, imagens, personagens. Cria estereótipos. Clichês, por exemplo: "Eu sou igual mulher de malandro, quanto mais apanho da vida, mais sou apaixonado por ela!!!" (Alfredo Hahn).

Por Fernanda Abreu*

Para bem tornar crível a existência de justificativas para a violência contra as mulheres nossa sociedade cria figuras, imagens, personagens.

Cria estereótipos. Clichês, por exemplo: "Eu sou igual mulher de malandro, quanto mais apanho da vida, mais sou apaixonado por ela!!!" (Alfredo Hahn).

A figura da "mulher de malandro" é uma dessas personagens nefastas que habitam o imaginário social brasileiro, escancarando o caráter estrutural de nossa misoginia. Aliás, porque no Brasil a figura do malandro tem também um "tipo" (ou estereótipo), a expressão carrega ainda preconceitos de classe e de raça/cor.

Quer testar? Quais as características fenotípicas de homens e mulheres vêm à sua cabeça quando ouve a expressão "mulher de malandro"? Tenho certeza que não é a imagem da Deputada Joice Hasselmann e tampouco de seu esposo médico.

Moral da história? Não há muita dúvida sobre o sentido da frase da deputada. Obviamente sua fala é misógina, preconceituosa e, quanto pior, normaliza a violência e, sim, sugere que há mulheres em face das quais a violência é banal e/ou justificável.

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Nenhum tipo de violência é justificável, nem a que sucedeu com a deputada, seja ela doméstica ou não, nem a que sucede diariamente com tantas e tantas mulheres em nosso país e no mundo.

Solidarizo-me com a deputada pelo que sofreu, mas particularmente, é hora de exigirmos mais.

Despreparo, desrespeito e muito preconceito há nessa fala. Não enxergando ou recusando ver - quem sabe? - a estrutura misógina na qual está imersa, a parlamentar também reproduz e estimula a estereotipação de nossas existências. Há coisa demais a lamentar nisto!

Se aqueles que individualmente violam nosso direito à uma existência livre de violência são obrigados a medidas educativas e de capacitação para a não violência, essa gente que nos violenta coletivamente, atingindo a higidez e a eficácia dos nossos direitos, deveria quanto mais ser obrigada a passar por processos educativos. Propor uma lei pra isso seria inusitado, mas necessário! Estamos presos demais ao direito individual enquanto quem deveria nos defender e falar por nós promove violência coletiva, moral, ética, psicológica...

Imunidade tem limite!

(Foto: divulgação)

*Fernanda Abreu é advogada e professora.

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