Violência racista e a (in)segurança da mulher pela cidade

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Conforme indicam os dados, a sensação de (in)segurança não é a mesma para todos os grupos | Por Ady Canário*

(Imagem: web)

A pesquisa “Percepções sobre segurança das mulheres nos deslocamentos pela cidade'', realizada pelo Instituto Patrícia Galvão, em parceria com o Instituto Locomotiva, com apoio da Uber e apoio técnico e institucional da ONU Mulheres, em outubro de 2021, coloca em debate o problema da violência racista, do preconceito e da discriminação. O desafio da implementação de medidas de enfrentamento às desigualdades de gênero e raça. Uma questão da pesquisa: “Quem se desloca pela cidade sem sentir medo de sofrer violência”? Sem dúvida, todas as mulheres correm mais riscos. É o que mostra o referido estudo, os trajetos e as violências enfrentadas. Faremos breves ponderações na transversalidade de raça e gênero.

Pelos números, segundo o Instituto, para 4 em cada 10, pessoas negras têm mais risco de sofrer violência do que brancos/as não negros/as em seus deslocamentos. Ou seja, a sensação de segurança é menor para determinado grupo. Por sua vez, a pesquisa expõe que 80% de mulheres negras temem racismo no transporte e que 21% afirmam terem sofrido racismo em locomoções. Das pesquisadas, 67% das mulheres negras passaram por situações de racismo quando estavam a pé. Os resultados demonstram que tais desigualdades acentuam as relações raciais e de gênero, especificamente da população negra, com destaque para as mulheres negras que continuam sendo alvo por conta da situação desigual quando comparadas a de brancos e de mulheres brancas em seus percursos e deslocamentos.

Conforme indicam os dados, a sensação de (in)segurança não é a mesma para todos os grupos. De acordo com a pesquisa, as mulheres, negras, pessoas de baixa renda, LBGTQIA+ e pessoas com deficiência estão entre os que declaram sensação de vulnerabilidade e de insegurança em seus percursos pela cidade. Assim, esse mapeamento é de extrema relevância para mostrar um retrato das desigualdades em que vivem as mulheres e a luta pela construção de políticas a fim de mudanças nesse cenário. Por essa razão, a importância de reafirmar as intersecções raça e gênero. Enquanto nós mulheres, mulheres negras, em todas diversidades, formos alvo das ameaças pelos modos de exclusão social.

Ao nos debruçarmos sobre esses resultados, interpretamos que o Instituto Patrícia Galvão problematiza o contexto do racismo, fenômeno que ainda recai sobre as mulheres negras vítimas de diversos ataques nas cidades, obviamente, isso ocorre em outros espaços. Vendo os dados na íntegra, o mapeamento ainda revela o sexismo, quando apresenta que: “A maioria das mulheres (79%) tem receio de sofrer agressão física, assédio ou estupro em ao menos um tipo de meio de transporte”. Nesse sentido, remetemos tais percepções como essenciais no presente mês,– pelo 8 de março Dia Internacional da Mulher - um marco de luta, conquistas e resistência a todas as formas de opressões, de raça, gênero e classe em todo mundo.

Portanto, o levantamento do Instituto Patrícia Galvão nos oportuniza pensar sobre o debate racial, a partir de uma perspectiva interseccional. Além do desafio na construção de ações e estratégias para essas demandas. Os movimentos de mulheres, das mulheres negras, são espaços de reexistência na transversalidade, especificidades que constroem as experiências e trajetórias, sobretudo na atualidade em que o racismo tem se reconfigurado em relações de poder. Enfim, que esse mapeamento apresentado possa servir de ferramenta necessária ao combate à violência racista, toda e qualquer forma de preconceito. Ao mesmo tempo, que possibilite refletir acerca da adequação das políticas de mobilidade e de segurança para todas as mulheres. 

*Professora Adjunta e Pesquisadora da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA), Centro de Ciências Sociais Aplicadas e Humanas (CCSAH), Departamento de Ciências Humanas (DCH).

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