Mês da Mulher: vereadora transforma a própria história, como mulher trans, mãe atípica e ativista, em instrumento de representatividade
Carol Ribeiro | Diário do RN
A política de Thabatta Pimenta (PSOL) começa muito antes do plenário da Câmara Municipal de Natal. Começa na luta cotidiana e na decisão de não aceitar que determinados corpos sejam empurrados para fora dos espaços de poder, segundo ela mesma. “Eu decidi entrar na política por causa de um contexto histórico, que é a exclusão de corpos como o meu, de corpos trans, de corpos com deficiência”, afirma ao Diário do RN.
Thabatta conta que a militância começou a partir da luta pelos direitos das pessoas com deficiência, causa diretamente ligada à sua história familiar. Mas, ao mesmo tempo, reconhece que sua própria existência carrega um significado político. Segundo ela, a presença de corpos como o seu ainda provoca resistência em parte da sociedade.
“Por si só, meu corpo já é um corpo político, que é um corpo transvestigênero nessa sociedade. É esse corpo que traz um imagético que a sociedade, por muitas vezes, não quer que ocupe nenhum espaço, nenhum mínimo”, avalia.
Foi com essa consciência que decidiu disputar espaço na política institucional. “O meu primeiro palanque foi um tamburete. E foi nesse tamburete que eu disse que a política era lugar de pessoas, de gente como a gente”.
A maior inspiração para essa trajetória vem de dentro de casa. Thabatta recorda a coragem da mulher que enfrentou preconceitos em uma cidade pequena do interior potiguar.
“Minha inspiração maior, sem dúvida, é a minha mãe. Minha mãe era uma mulher lésbica que enfrentou tudo e todos em uma cidade pequena como Carnaúba dos Dantas, com seu filho com deficiência, em outra época, onde a segregação estava colocada. Ela tinha orgulho da sua filha trans em um contexto de preconceito, do interior do Estado, e nunca teve medo de nada”, afirma.
Estar na política, porém, significa enfrentar desafios constantes, especialmente sendo uma mulher trans: “A gente vive no país que mais mata a população trans e travesti. Não é fácil ouvir no parlamento coisas absurdas que a gente não acessaria em outros lugares. Tem que ser muito mulher mesmo para estar nesse lugar, dizendo que a gente está ali por todas as mulheridades possíveis”, afirma.
Ao mesmo tempo, ela percebe sinais de transformação social: “A mulher trans e travesti foi a mulher mais votada das últimas eleições. Então há uma mudança brusca na sociedade, onde a gente se coloca e diz que esse espaço também é o nosso”, comemora.
Nesse sentido, Thabatta considera o feminismo um dos movimentos mais importantes da história das mulheres, mas defende que ele seja cada vez mais inclusivo, com uma ampliação do movimento para incluir plenamente as mulheres trans e travestis. “O feminismo precisa ser cada vez mais aliado do transfeminismo, porque é uma luta plural de todas as mulheridades”, pontuou.
Apesar de se sentir acolhida pelo feminismo em grande parte de sua caminhada, Thabatta destaca as Radfem, feministas radicais, que negam a identidade de mulheres trans. “Infelizmente há feministas radicais que acham que nós, mulheres trans, estamos ocupando o lugar de mulheres. Que cada vez mais tenhamos mulheres aliadas e que entendam todas as mulheridades possíveis”, finaliza Pimenta.

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