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terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Como a ideia de ‘limpeza mental’ pode ajudar no novo ano



Por Estêvão Bertoni
Do Nexo Jornal

Se a quantidade de informação produzida diariamente no mundo fosse agrupada e publicada em jornais, cada habitante do planeta receberia em casa 174 edições por dia. Já o amontoado de dados que cada pessoa troca diariamente por meio de ligações de celular ou por e-mails é o equivalente ao conteúdo de seis jornais. Estamos cada vez mais soterrados por informações, e as fazemos circular num volume que cresce 28% por ano, em média, desde 1986.

A conclusão é dos pesquisadores Martin Hilbert, da Universidade do Sul da Califórnia, nos Estados Unidos, e de Priscila López, da Universidade Aberta da Catalunha, na Espanha. Eles são autores do estudo “A capacidade tecnológica do mundo de armazenar, comunicar e computar informações”, publicado pela revista Science em 2011.

No trabalho, os dois mostram, por exemplo, que as pessoas assistem, em média, a cinco horas de televisão por dia (existem 21.274 redes de TV no mundo produzindo diariamente 85 mil horas de programas). E que a cada hora de vídeo assistido pelo YouTube, outras 5.999 horas de material são publicadas na mesma plataforma. Para chegar a esses cálculos, os pesquisadores analisaram 60 tipos diferentes de tecnologias analógicas e digitais utilizados entre 1986 e 2007.

O problema, em meio a tantas notícias, é que a capacidade do cérebro humano de processá-las é limitada, como lembra o diretor do laboratório de percepção musical e cognição da Universidade McGill, em Montreal, no Canadá, Daniel Levitin, em artigo de 2014 para o The New York Times.

Por isso, cada vez mais pesquisadores têm defendido a importância de se acionar um “botão de reinicialização” do cérebro de tempos em tempos. Como se o organismo pudesse passar por um processo de limpeza para poder ser restaurado, como acontece com os computadores.

Os modos de atenção

O cérebro possui dois modos dominantes de atenção, segundo Levitin, estruturados em redes de tarefas. Elas se distribuem como “circuitos elétricos” de neurônios dentro do cérebro.

A rede de tarefas positiva, também chamada de central executiva, é ativada quando focamos, sem distrações, numa tarefa que devemos exercer

A rede de tarefas negativa é usada quando divagamos, quando descansamos o cérebro, durante as férias ou feriados de fim de ano, por exemplo, ou quando dormimos.

As duas redes, porém, funcionam como uma gangorra. Quando uma é ativada, a outra automaticamente se desliga. Elas são controladas numa parte do cérebro chamada de ínsula.

A vantagem de se desligar

É no estágio em que o cérebro está descansando que os estalos de criatividade ou grandes sacadas acontecem, de acordo com Levitin.

“Você já deve ter feito uma caminhada até o mercado ou algo que não exigia uma atenção prolongada quando, de repente, ‘boom’: a resposta para um problema que estava te incomodando aparece sem nenhum aviso. O modo em que a mente divaga está fazendo conexões entre coisas que nós não víamos, previamente, que estavam conectadas”, escreveu.

Levitin lembra ainda que o cérebro tem ainda filtro de atenção que nos diz o que podemos ignorar sem riscos e no que devemos centrar nossa atenção. Se a gangorra se movimenta muito rápido, ou seja, se passamos do estado de atenção ao de distração constantemente, esse movimento gera cansaço e confusão.

Ou seja, cada email, cada mensagem nas redes sociais, cada nova informação que chega pelo Facebook que nos distrai compete por recursos no nosso cérebro que deveriam estar direcionados para coisas importantes.

Como equilibrar a mente

Levitin sugere algo simples: as pessoas deveriam dividir seus dias em projetos com períodos delimitados. Ou seja, o ato de interagir pelas redes sociais deveria ocorrer num momento predeterminado, e não em intervalos irregulares. 

“Aumentar a criatividade irá acontecer naturalmente quando controlamos as multitarefas e imergimos numa única atividade mantida por períodos de, digamos, 30 ou 50 minutos. Vários estudos mostraram que caminhar na natureza ou ouvir música pode ativar o modo de distração da mente. Isso age como um botão de reinicialização”, diz. 

Atividades que podem ajudar

A Fundação de Saúde Mental do Reino Unido mantém em seu site uma lista com resoluções de Ano Novo que podem ajudar as pessoas a manterem a mente limpa. Elas incluem recomendações como manter uma dieta saudável, fazer mais exercícios, parar de fumar e aprender a enfrentar o estresse, com atividades como a meditação com base no conceito de mindfulness, que prega a atenção total ao que acontece na mente e no corpo. O Nexo separou outras iniciativas com base em pesquisas científicas.

O contato com a natureza

Alguns estudos têm demonstrado a capacidade da natureza de “restaurar” o cérebro das pessoas.

Nos anos 1980, uma pesquisa com pacientes de um hospital da Pensilvânia, nos Estados Unidos, que se recuperavam de cirurgias de vesícula entre 1972 e 1981, mostrou que o simples fato de a janela do quarto em que alguns estavam internados estar virada para árvores do pátio tornava a recuperação mais rápida do que a daqueles que tinham como vista um muro de tijolos.

Para confirmar a hipótese, os pesquisadores trocaram pacientes que possuíam mesmo peso, idade, situação médica, entre outras características, de quarto, e a única explicação que encontraram para a rapidez com que se recuperavam era a paisagem observada da janela. 

Outro estudo de 2004, com crianças que apresentavam deficit de atenção, também mostrou que aqueles que brincavam em ambientes fechados com vista para a natureza se comportavam de maneira mais calma dos que aqueles que desenvolviam atividades em salas que não permitiam a visualização de locais com árvores e gramados.

“Ambientes naturais promovem calma e bem-estar em parte porque expõe pessoas a baixos níveis de estresse”, escreve Adam Alter, professor assistente de marketing e psicologia na Universidade de Nova York, em artigo de 2013, para a revista The Atlantic.

A busca por lugares silenciosos

Um outro fator que contribui para a limpeza da mente é o silêncio. Segundo um relatório de 2011 da Organização Mundial da Saúde, a poluição sonora tem efeito prejudicial na saúde das pessoas. Por causar estresse e estimular a secreção de cortisol, pode causar sentimentos de aflição, ansiedade e depressão.

Também contribui para doenças cardiovasculares, influencia funções metabólicas e causa distúrbios do sono e de apetite, além de ter relação com a obesidade. Por esses fatores, segundo a OMS, o barulho, especialmente os causados pelo trânsito, aeroportos e metrôs, deve ser tratado como problema de saúde pública.

As leituras fora da zona de conforto

Segundo a neurocientista Tara Swart, em texto publicado na revista Forbes em 2018, uma das maneiras de reestruturar a mente é estimular a neuroplasticidade, que é a capacidade do cérebro de fazer novas conexões, se moldar e adaptar quando exposto a novas experiências.

Para ela, um modo de fazer isso é escolher livros, músicas e programas de TV que estão fora da zona de conforto.

“Vá ver um filme de arte se você é um fã da Marvel, ou um filme de ação se você normalmente prefere documentários. Tente o mesmo com leituras: troque seu jornal de todo dia por um diferente, peça ao vendedor de livros uma recomendação, ou ouça música clássica se você normalmente escolhe rock. Variedade de estímulos e experiências irá ajudar a construir conexões laterais no cérebro que vão nutrir a criatividade e melhorar a tomada de decisões”, escreve.

Aproveite para dormir

Alguns estudos mostram que a privação do sono pode ter relação com distúrbios, como bipolaridade, e doenças como hipertensão e diabetes.

Em 2003, um trabalho da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, mostrou que a perda crônica de sono (dormir de quatro a seis horas apenas ao longo de 14 dias) poderia causar enfraquecimento das funções cognitivas em adultos saudáveis.

Quando uma pessoa dorme, as células entram num ciclo de reparo que envolve oxigênio e glicose. Num estado de privação de sono, os produtos desse ciclo são negados às células do cérebro, impedindo que os órgãos reajam aos estímulos.

“Cada célula no nosso corpo precisa de comida. Então, todas essas coisas acontecem de modo regular quando nós dormimos bem. Quando interferimos nisso, os sistemas saem de sincronia”, diz a psiquiatra Joyce Walseben, ex-diretora do Centro de Distúrbios do Sono do Hospital Bellevue, em Nova York, nos Estados Unidos, em reportagem de 2013, da revista The Atlantic.

Descanso do trabalho

Trabalhar durante muitas horas também tem efeitos sobre o cérebro. Segundo um trabalho de 2016, do Centro para o Crescimento Equitativo, com sede em Washington, nos Estados Unidos, longas jornadas causam danos físicos e mentais nos trabalhadores. Acidentes e erros também se tornam mais comuns após nove horas de trabalho.

De acordo com o estudo, o economista John Pencavel, da Universidade  de Stanford, descobriu que a produtividade de um trabalhador é constante se ele trabalha menos de 49 horas por semana. Além desse período, a produtividade despenca, se o ritmo for mantido por semanas.

Trabalhar mais não significa melhores resultados. “Aqueles que gastam 70 horas de trabalho [por semana] realizaram pouco mais do que aqueles que trabalharam 56 horas. Em outras palavras: aquelas 14 horas extras foram um desperdício de tempo em termos de trabalho real realizado”, diz o texto.





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