Alto do Louvor. Para quem?

(Foto: O Mossoroense)

Por Luiza Gurgel*

– Você quer saber sobre o Alto do Louvor, é? 
(risos)

(olhares desconfiados. Conversando entre si. Penetrando o ar como agulhas que rasgam tecidos)

– Sim. É para uma pesquisa.

– Ahh, o Alto do Louvor é bem ali [aponta!]. É onde tinha os cabarés aqui em Mossoró, as raparigas.
(mais risos)

– O momento auge do Alto do Louvor foi nas décadas de 50 e 60, se eu não me engano. Quando ir a cabarés era chique, era refinado. Na época, eu tinha 13 anos aproximadamente. Meu pai não me deixava ir, mas quando eu ia brincar na rua, sempre tentava passar ali em frente. Só por curiosidade, claro. Até porque eu era uma criança, ”né”?
(risos irônicos, como de criança que acabou de fazer pirraça)

– Olhe, vinha gente de fora só para conhecer o local. É! Você não acredita, mas é. Por causa das salinas de Areia Branca, Grossos (municípios que ficam nos arredores de Mossoró, e que o comércio salineiro é uma das principais fontes de renda), os trabalhadores passavam os cinco dias nas empresas e nos fins de semana vinham para cá, para ficar com as mulheres... como posso dizer... dadas.
(risos)

– Por que “Alto do Louvor”? Ahh, pelo que meu pai me disse, quando eu era criança, o Alto do Louvor chama-se assim devido a um cabaré que ficava na parte mais alta do cruzamento entre as ruas Nilo Peçanha e Campos Sales, ali por trás da caixa d’água [aponta novamente], chamado Louvre. Isso mesmo. Fazendo referência ao Museu francês. E como ficava numa elevação da rua, o pessoal começou a fazer essa junção de “alto” com “Louvre”, ficando a região conhecida como “Alto do Louvor”. 

[Eu, a autora que vos escreve, já tinha ouvido outra história de como surgiu esse título: algumas arquiteturas da época e do local usavam a art nouveau para compor suas paredes e ornamentações. Com o passar dos anos, o termo belgo foi ficando popular e os próprios habitantes foram modificando-o, até ficar “Alto do Louvor”]

– Você quer saber quantos cabarés tinham aqui? Muitos! Copacabana, Coimbra, Casablanca, Cassino Las Vegas... e olhe que tinha muito mais. Tudo era muito movimentado. A alta meretriz era conhecida. Não era qualquer um que passava por lá. As pessoas iam muito arrumadas, os homens como verdadeiros barões, com suas bebidas e cigarros, e as mulheres... quando iam... usavam vestidos longos, muito bem produzidas.
...

– Sabe que eu nem sei por que os cabarés se chamavam assim, com esses nomes “de fora”.
...

– Talvez porque a Europa, o Rio de Janeiro, sempre foram vistos como modelo, vitrine, por isso a influência é tão presente até hoje. – Eu disse.

– É... deve ser mesmo. Sim, mas continuando. Essa época era quando Núbia Lafayette estava no seu melhor momento, inclusive ela própria já veio cantar no Alto do Louvor. 

[“Devolvi o cordão e a medalha de ouro, e tudo que ele me presenteou”]. Mas não era todo mundo que conseguia pagar, não. Era caro! Ou melhor, cara. Bem cara! 
(troca de olhares)

– Você sabe quanto era mais ou menos?

– Dependia da beleza da mulher. O preço variava muito. Dependia também do quanto o “barão” estava pré-disposto a pagar.

– Então era quanto aproximadamente? Você tem uma ideia?

– Não era todo mundo que tinha condições de pagar um preço tão alto...
(por algum motivo, não falava valor algum. Era como se quisesse omitir algo que pudesse estar encoberto pela resposta dessa minha pergunta)
(continua)

– E para não ficar sem suas “degustações”, essas pessoas iam para o baixo Louvor, onde só os cabarés mais pobres e sujos ficavam. 
(cara de asco)

– Que eu me lembro, tinha o... Rasga, o Cai Pedaço...
(risos intensos)

– Nessa baixa meretriz, as raparigas tinham doenças, não se cuidavam. Tinha vezes que eu estava brincando na rua, e via de longe crianças fazendo fila para entrar num quarto com as mulheres da vida que tinham por lá. Às vezes, elas aceitavam, mas às vezes, não. Eu não sei como eles não tinham nojo.
(cara de quem mergulha numa memória do passado e não percebe as feições que a face inconscientemente reproduz: de repulsão)

– Nessa parte mais inferior do Alto do Louvor, ou melhor, Baixo, algumas pessoas tinham vergonha de ir, sabe? Porque podiam ser malvistas de estar entrando ali. Até porque nesse setor tinha muitas drogas, teve até morte, você acredita? Inclusive eu soube que um dia um homem morreu em cima de uma dessas mulheres, e ela teve que ficar lá até a ambulância chegar. 
(risos avermelhados desconcertantes)

– Pelo menos, foi isso que eu soube.
...

– Mas os bordéis também eram chamados de “casas de recurso”, porque quando as mulheres ficavam prenhas, muitas vezes bem jovens, seus pais expulsavam-nas de casa, aí, como elas não tinham onde ficar, iam para os cabarés pedir ajuda, tanto de teto, quanto para arranjar algum “recurso”, dinheiro, para se sustentar.
...

– Tinha também uns homens que ficavam “se dando”. Uns... É... 
(gagueja, como se a palavra quisesse saltar da tua boca, mas a mente não deixasse)

– Uns “viadinhos”.
(risos) 

- Tinha o... Como é o nome dele?... O...
[Não sei, mas a impressão que meu deu foi que a memória dos nomes estava viva e nítida na sua mente, mas que se os falasse de primeira, abalaria a sua dignidade]

– Ahh, lembrei! Tinho o Alegria, o Lindo Olhar, o Bráulio, inclusive este era o melhor dançarino de tango da cidade, tinha o... O... Ahh, tinha o Juarez, que até hoje passa às vezes por aqui. Ele passava sempre com uns peitos.
(risos)

– Ainda tinha gente que deitava com eles.
(risos)

– Pelo menos, foi isso que eu soube.

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A porta estava aberta. Apresentei-me. Sorri. Sorriu. E só aí relaxamos os ombros, acompanhando este ato com um suspiro como quem diz “não precisa/o se/me preocupar. Não somos/são estranhos”. 

– Tu conheces o Alto do Louv...

– Psiii... fale baixo! 
(olha para um lado; para o outro)

– Conheço, mas pouco. Só ouvi falar, na verdade. Eu nunca procurei saber muito, não. Só sei que tinham os “cabaré”. 
(enxuga o suor)

– Eu sei que os homens, principalmente os “casado”, frequentavam aquele lugar. Sei também que mulher direita não podia nem passar por perto, quanto mais mulher casada. Pegava mal, sabe? De mulher, só as “rapariga” mesmo que iam. Mas todos os “homi” viviam por lá, nos chateau, que eram onde as pessoas se encontravam; os “quarto” do “cabaré”.
(Convida-nos para sentar no único canto que dava na casa: sua cama)

– É triste, a realidade, minha filha. É triste. 
...

– Mas cada um sabe da sua vida, né? Eu não falo nada, fico só aqui, na minha. Apenas ouço falar. No [sussurrando] alto do louvor [retorna à altura normal] tinha muita droga também, principalmente na parte de baixo, na parte mais pobre, sabe? O pessoal ia para vender as “pedra”, para taf... tef... traf...

Eu ajudei: – traficar?

– Isso! “Tafricar”. 
(silêncio)

– Mas como a polícia reagia? Ou melhor, tinha polícia pelo Alto do Louvor?

– Tinha. E tinha “de ruma”. Engraçado você falar isso. Na baixa meretriz, quando a polícia pegava os “homi” vendendo as “droga”, era tanta surra. Batiam tanto nos “coitado”. Chegavam até a matar. Mas era só você dar alguns passos, para essa realidade mudar completamente. Na alta meretriz, os polícias eram clientes das “puta”, sabe? E todo mundo sabia que tinha droga do mesmo jeito, mas por ser numa parte mais primorosa, mais requintada, onde tudo era chique, até a pedra e o pó “virava” ouro.
...

– Isso não muda muito nos dias de hoje. O que um dia já foi motivo de turismo por todo o Brasil e pelo mundo, hoje é área de abandono. De vida, de corpo, de família, de saúde, de amor. Hoje, a maioria das pessoas aqui não vivem porque querem, mas sim porque ainda não morreram. 

[enquanto falava, pôs o braço esquerdo dobrado encostado na barriga, e, nele, apoiou o cotovelo direito suportando a cabeça com o prolongamento do braço até chegar na tua mão, como numa espécie de “contra-contra-peso”, onde a barriga segurava o braço; o braço, o cotovelo; o cotovelo, a mão; e a mão, a cabeça, significando o cansaço eterno que a vida carrega-lhe. E o olhar sinonimizava vagueza, transpassando o tempo presente, como se teu corpo estivesse blindado de emoções e sentimentos pelo tanto que já viveu nos caminhos da tua existência]

– É tudo o que eu sei do Alto do Louvor. Eu não preciso saber mais do que isso. 

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São duas histórias, duas versões, dois olhares. Um mesmo assunto, mesmo local, mesmo objeto. São dois depoimentos que, em momento algum, os declarantes declararam seus gêneros sexuais por pronomes, artigos, adjetivos ou nomes próprios – e talvez você nem tenha percebido. Mas é até fácil identificá-los, porque o peso cultural, principalmente que o Alto do Louvor carrega, no qual decai sobre o homem e sobre a mulher é completamente desigual. Os aspectos culturais que são nitidamente percebidos numa simples conversa e sobre um mesmo assunto com alguém que teve a sua virilidade e masculinidade exaltadas e enaltecidas historicamente na sociedade, e com outrem que, concomitantemente a esse, teve a sua existência esquivada à inferiorização e anulação do querer, do poder, do ter, do ser, do viver, são totalmente díspares. 

O Alto do Louvor foi uma região que realmente ficou conhecida por abrigar os maiores cabarés de luxo da cidade de Mossoró-RN, principalmente nos anos 1950 a 1960. Atraía turistas do mundo inteiro, e era casa de shows para muitos artistas da época. Assim como teve seu ápice, teve seu declínio, e hoje, mesmo ainda sendo popularmente conhecido como “Alto do Louvor”, o espaço é quase em sua totalidade dominado pela droga e pelo crime. Lá, ainda há prostituição – e até muito mais do que a gente possa imaginar –, mas de forma clandestina. 

Nos dias de hoje, as pessoas têm medo de falar sobre a região. Ou talvez um medo disfarçado de vergonha. É como se pronunciar a expressão acarretasse um tipo de culpa.  Mas engraçado como a carga dessa “culpa” é bem diferente para a mulher e para o homem. Ela: fala como se estivesse sendo julgada. Ele: fala como se estivesse sendo reafirmado. Ela: tem receio de falar o nome da localidade para que ninguém ache que ela já foi lá. Ele: ri com os amigos quando fala que já foi ao local ou deixa a entender isso. Ela: por ser mulher, assim como as prostitutas da época, inconscientemente, sentem-se no lugar de produto. Ele: por ser homem, assim como os “barões” do período áureo, sentem-se no lugar de comprador. 

Acaba sendo sutil a forma como os cacos culturais dessa história é reproduzida no decorrer das gerações. Os comportamentos vão se dissipando no ar, tornando algo dito como “natural”. E isso é mostrado nos depoimentos acima, nos quais um simples senhor e uma despercebida senhora, que estão em vidas e realidades separadas por apenas alguns passos, contaram versões, de uma mesma história, completamente divergentes, onde o muro que parte esse “cisma” é a cultura de gênero. 

Que bom que pude conversar com Seu Fulano e Dona Alguém – prometi que não exibiria o nome deles –, assim pude entender mais sobre o que foi e o que é o Alto do Louvor. E de quebra, ainda construí a minha versão a partir do que vi e ouvi, não só sobre o Alto do Louvor, mas sim, sobre a vida. 

*Luiza Gurgel é atriz e estudante de jornalismo na UERN. 

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