Termo de sobrevivência


O antigo Troller preto, desgastado na pintura pelo tempo, faz barulho pelas ruas desertas enquanto sigo adiante. Pode não ser uma atitude inteligente, admito – qualquer som em vias abandonadas é perigoso, mas hoje preciso resolver assuntos rápidos. Além disso, minha mochila está abastecida com um facão e duas pistolas Taurus pra qualquer contratempo. Os semáforos estão quebrados há anos; também preciso desviar dos carros que foram deixados pra trás – conheço as vias da cidade como as próprias palmas das minhas mãos. Moro aqui há muito tempo. Não costumo correr risco com frequência, assim, fico atenta a qualquer movimento ou ataque inesperado. Sei que inúmeras pessoas podem estar me monitorando do alto dos prédios que, aparentemente, estão desocupados – o fato me deixa tensa. Viro à direita e continuo a observar o cenário ao meu redor.

Cinzas de corpos que foram queimados; uma grande quantidade de lixo pra qualquer canto que se olhe; buracos no asfalto; prédios tombados; mortos em decomposição aqui e acolá. A vegetação racha o chão, querendo respirar pra uma nova vida. Mas eu não vejo um pé de gente pelas ruas, afinal, é um pouco depois do início da tarde. O sol está no alto e se expor neste horário não é o mais indicado.

Meu nome é Pietra e tenho trinta anos. Os governos disseram que a situação se resolveria em doze meses, no máximo vinte e quatro. Você deve imaginar o quão felizes ficamos quando os testes das vacinas contra a doença começaram, mas tudo saiu pela culatra. Foram muitas mortes no processo – no início e nos meses seguintes. As cobaias humanas não reagiram bem aos experimentos. Quinze anos depois, as esperanças foram esvaziadas das nossas mãos há muito.

Eu era apenas uma adolescente na época, mas tinha consciência do que estava acontecendo. Em menos de um ano desde o início do período viral, os responsáveis pela economia montaram uma estratégia de retomar o setor comercial aos poucos, mas, com isto, as pessoas começaram a crer que a doença cairia no esquecimento, logo, as medidas de prevenção diminuíram drasticamente e a enfermidade voltou a se espalhar mais uma vez. Os governos do país começaram a enfraquecer. O federal se absteve. O presidente sumiu. Os substitutos que vieram a seguir, sucumbiram – um longo beco sem saída.

Aos poucos, os diversos setores econômicos foram para os ares. As pessoas enlouqueceram. E quem não enlouqueceria? Não estávamos mais à beira de um colapso, já o vivenciávamos. Saquearam farmácias, supermercados, bancos, lotéricas... Qualquer coisa que pudesse ser roubada em nome da sobrevivência. Meus pais eram médicos, portanto lutaram na linha de frente pra salvar o máximo de cidadãos possível. Eram muitas mortes diárias. Cada dia em casa era uma vitória. Porém, a realidade da minha família não seguiu assim por muito tempo. Um dia, minha mãe não voltou pro jantar – desde então, nunca mais a vi. Dois anos depois, foi o meu pai: certa noite, ele saiu à procura de suprimentos pela cidade... Bem, você já deve saber o que ocorreu. A recomendação era de que eu não deveria sair de casa à procura de ambos, em hipótese alguma.

Tive que me virar com o que aprendi, incluindo tarefas simples da medicina. Sempre tivemos uma vida agradável, mas, depois que meus pais se foram, eu me vi de mãos atadas, lutando pra sobreviver num mundo desvairado e caótico. Eu não queria a carga nos meus braços, mas decidi levar em frente. Enquanto dobro a próxima esquina, as lembranças de sempre invadem meus pensamentos como água. Há quinze anos eu luto pra caminhar mais um pouco, não apenas por mim.

Paro o carro em frente à catedral que antes já foi impecável, mas, hoje, as paredes do lado de fora estão cinzas e sujas por causa do tempo com o acréscimo do descuido. Desligo o motor, pego a mochila abastecida e tranco a porta. A igreja está aberta – sinônimo de que a casa de Deus sempre estará ali pra quem quiser, mesmo em meio ao caos. Os bancos de madeira ainda estão dispostos daquela maneira tradicional, em fila, formando pares de ambos os lados. O concreto está rachado e amarelado por causa das chuvas e do mofo. O padre de frente pro altar, com as mãos cruzadas nas costas, observa a imagem de Jesus Cristo crucificado. A batina preta ondula com o vento que entra pelas portas das laterais. Ele escuta meus passos ecoando no piso de mármore escuro e se vira na minha direção. Ele é um homem alto; o cabelo louro-escuro e grisalho cai em cachos desarrumados pela testa. Os olhos castanhos são frios, mas tentam passar delicadeza num sorriso sem boca, coberto por uma máscara. Ele deve ter uns cinquenta e poucos anos.

- Mas que surpresa agradável, minha filha. – ele diz, naquela voz que ressoa gentil, mas forte. Um som que fala, ou falou, para multidões. – Pensei que viesse apenas no final de semana.

- Decidi adiantar alguns trabalhos, padre. – retribuo o sorriso por baixo do lenço que cobre boa parte do meu rosto. – Por favor, o senhor poderia me acompanhar até o carro? Tenho algumas mercadorias que não posso carregar sozinha. – aponto pra saída.

- Claro. – ele vem até onde estou e coloca uma das mãos sobre meu ombro. O toque se tornou uma proibição faz tempo, mas lá estava ele quebrando a regra como se eu fosse gostar.

Caminhamos juntos pra fora da catedral. O vento do início da tarde é seco e o sol castiga alguns pontos da minha pele que estão expostos. Me abaixo pra amarrar o cadarço da minha bota e peço ao padre pra abrir o carro. Ele concorda, solícito, e se vira. Ele até o faria de fato, caso o veículo não estivesse trancado à chave ou se eu não tivesse agarrado o cabelo de sua nuca e batido sua cabeça contra o vidro da porta. O som é alto, mas o vidro sequer trinca. A película blindada é eficaz. Ele grita, surpreso, e eu me afasto.

- Mas que...??? – ele se volta pra mim, com a mão na testa que sangra generosamente através de um talho que segue até o nariz, manchando a máscara branca. – MAS QUE DIABOS, PIETRA?!

- Seu filho da puta, você achou mesmo que eu não ia descobrir, né?!

Ele me olha atordoado, às pressas pra estancar o sangue.

- Confiei no senhor, padre. Mas aqui se faz, aqui se paga. – estou pronta pra tirar uma das pistolas da mochila, mas ele tenta me atacar com aquelas mãos nojentas. Felizmente, sou mais rápida. Eu desvio e passo uma rasteira em seus calcanhares. Ele é alto, mas não tem noção de como distribuir o peso pelo corpo de forma apropriada. Cai num baque impressionante. Ele urra.

Arranco a máscara ensanguentada do seu rosto. Os lábios finos começam a inchar numa velocidade absurda. O nariz está pior do que eu imaginava, num ângulo estranho. Fico satisfeita. Coloco uns dos meus pés em cima do pescoço dele, com a plataforma da bota pressionando o pomo-de-adão. Ele arfa e agarra meu calcanhar. Me mantenho firme e retiro uma das Taurus da mochila, me repreendendo por não ter deixado uma escondida sob o casaco. Destravo a pistola, me inclino um pouco e enfio o cano na boca dele. O homem no chão grita. Faço uma nota mental de que precisarei desinfectar a arma depois.

- Sabe, padre, achei que pudéssemos manter os negócios em ordem como nos últimos anos, mas o senhor teve que fazer merda e agora eu vou precisar limpar tudo.

Ele resmunga alguma coisa, com os olhos arregalados, mas quando tenta me derrubar, disparo a arma duas vezes, silenciando qualquer palavra que ele pudesse me dizer. Os miolos e o sangue pelo asfalto são instantâneos. Faço uma careta de nojo e tiro a bota de cima do corpo morto. Os olhos ainda estão naquela mesma expressão apavorada. Se eu pudesse tirar o lenço do rosto, provavelmente teria cuspido no cadáver. Olho ao redor, esperando alguma reação de quem sabe-se lá esteja escondido. Recebo apenas o silêncio em resposta. Os papéis pela rua deserta voam ao vento. Ninguém se arrisca a vir até onde estou. Talvez estejam agradecidos ou com medo – ou apenas não querem desperdiçar balas. Retiro as luvas pretas de couro que cobrem as minhas mãos e jogo-as no chão. As pessoas não se importam mais com quem mata quem. É uma terra sem leis. Não perco tempo fechando os olhos do padre. Deixo o corpo ali mesmo caso algum animal faminto queira se alimentar. Entro no carro e travo as portas. Arranco.

A situação extrema na qual vivemos atualmente mostra apenas o quão as pessoas podem se tornar violentas quando a existência está em jogo. É o estágio mais primitivo do ser humano.

Ninguém teria a coragem de matar um padre.

Mas eu tive.



*Taysa Nunes é jornalista, formada pela Uern. Ama ficção-científica e literatura em geral. Escreve desde criança.

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