À todas que não conseguiram sobreviver e às que lutam diariamente para isso

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Feliz dia da mulher?

(Foto: Arte de Lari Arantes)

Por Carol Ribeiro

5h. Acorda. Atividade física. Faz café da manhã. Faz almoço. Leva filha pra escola. Organiza a casa. Trabalha, 4h de expediente. Pega filha na escola. Almoça. Arruma cozinha. Estuda. Escreve. Faz o lanche. Resolve problema no banco, ou no centro da cidade. Escuta assédio no meio da rua. Leva filha pra curso extracurricular. Corre pro trabalho, mais 4h. Dá uma fugidinha para pegar a filha e levar para casa. Volta pro trabalho. Escuta cantada dos colegas no corredor. Chega em casa. Faz a janta. Encaminha o almoço do dia seguinte. Lava os pratos do dia. Organiza a cozinha. Separa as roupas e prepara bolsa para amanhã. 22h. Deita pra dormir. Lembra que faltou ler o capítulo daquele livro. Faltou escrever o texto sobre aquela temática que há tempos tenta. Faltou tempo para estudar aquela legislação que ajudaria no trabalho. Esqueceu de marcar aquele médico que a filha precisa ir. Faltou tempo para sentar e perguntar à filha como estão os estudos e se precisa de ajuda. 

Mas lembra que tem o privilégio de estar viva num país em que três mulheres são vítimas de feminicídio a cada dia, uma mulher é vítima de estupro a cada 9 minutos, em que a cada dois minutos é registrada uma agressão sob a Lei Maria da Penha. Tem o privilégio de, durante a pandemia, não ter um companheiro que contribua para o aumento registrado de 75% das agressões físicas e 73% das agressões verbais contra as mulheres dentro de casa. Privilegiada de ter um carro próprio num país em que 97% de mulheres que usam transporte público afirmam já terem sofrido assédio. Num país em que o investimento com ações de combate à violência contra a mulher pelo Ministério responsável no ano passado foi o menor dos últimos 10 anos. 

Tenta dormir com o desejo de ter uma vida respirável num país em que trabalha diariamente uma média de 10 horas a mais que os homens. 

Apaga no meio dos pensamentos. Vem aí mais um dia de luta. Sem romantização.

*Os dados são do Instituto Patrícia Galvão, O Globo e IBGE.

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