O genocídio escolar

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O discurso político de pautar a educação como prioridade e relevante no Brasil é pura hipocrisia e só é usado de quatro em quatro anos na época das campanhas eleitorais

(Foto: Michele Mendes/TV Globo)

Por Paula Regina da Silva Duarte*

É histórica e uma constante a luta dos professores e professoras brasileiros por dignidade, melhores condições de trabalho e valorização salarial, entretanto, em 2020 e 2021, anos em que se abateu sobre o mundo uma terrível pandemia, a luta dos profissionais da educação nunca foi tão legítima: a luta pela vida! O que os professores querem hoje é a oportunidade de continuar a existir, é a luta pela sobrevivência.

Durante todo o ano de 2020, professores de diversos estados e municípios foram constantemente ameaçados a retornarem para as salas de aulas com ensino presencial, em estruturas que em condições normais já são precárias, vale salientar que a crise na educação está ainda mais aprofundada porque nos últimos anos o governo federal ao invés de investir mais recursos financeiros para suprir pelo menos as necessidades básicas da educação, a vê como sua inimiga e vem cortando verbas a cada ano. No ano atual, o corte representa mais de 27% em relação aos repasses realizados no ano passado, essa medida por si só já prenuncia uma tentativa de genocídio no âmbito escolar.

Como se não bastasse isso, no último dia 20 o congresso nacional aprovou o PL 5595/2020. O projeto torna serviço essencial o ensino presencial nas redes básica e superior da educação pública e privada. Na prática, força a reabertura de escolas e universidades, expondo professores, funcionários e estudantes ao novo coronavírus e, no pior momento da pandemia. Ora, os profissionais da educação sempre tiveram a consciência de que suas atividades são essenciais para o desenvolvimento de toda e qualquer sociedade, tanto o sabem, que sozinhos e sem investimento nenhum por parte do governo federal, estadual e municipal (salvo algumas raras exceções) os professores e professoras brasileiros custearam por conta própria o ensino remoto no Brasil, não foram poucos os casos noticiados nas grandes mídias de professores e professoras que de  muitas formas tentaram e continuam tentando suprir às necessidades dos seus alunos.

Uma nação que sempre foi injusta e ingrata com os seus professores, agora no ano de 2021, intenta dar um ultimato sem misericórdia nos profissionais da educação, os quais pagarão com a vida o amor e a dedicação que sempre doaram ao ofício de ensinar.

É fato, não fake que no Brasil mais 390.000 pessoas já perderam suas vidas em treze meses, que a média móvel de mortos por Covid-19 é de mais 2.500 mortes diárias, que neste ano o país enfrenta variantes mais contagiosas e ágeis, que a campanha de vacina segue a passos lentos em todo país porque o governo federal se recusou a comprar vacinas, que pacientes de Covid estão sendo intubados sem o kit de intubação, falta medicamentos.

Diante desse cenário, a reabertura das escolas com ensino presencial no pior momento da pandemia aprovada pelo congresso, não representa outra coisa que não: genocídio da comunidade escolar.

Ao que parece, parte dos nossos parlamentares não vivem a realidade dos fatos e não ouvem a voz da ciência que estima 562,8 mil mortos até julho deste ano no Brasil, segundo a Universidade de Washington nos EUA, isso considerando a situação atual com escolas fechadas, com a reabertura das escolas e universidades a circulação de pessoas, a aglomeração, maior uso do transportes público, o contágio da doença fatalmente será uma triste realidade que agravará ainda mais o show de horrores que temos vivido no último ano.

Essa realidade iminente não se trata de uma previsão surrealista, o Brasil já comprovou a certeza dessa profecia quando em 2020 o estado do Amazonas reabriu suas escolas e viu o vírus se proliferar e teve como resultado 342 professores infectados 20 dias após a reabertura das escolas, consequentemente, o estado registra dezenas de mortes de professores também. 

A lógica é simples: a educação sem dúvidas é um serviço essencial, mas não existe serviço essencial sem pessoas vivas que o realizem, não existe escola com profissionais da educação mortos.

Se os parlamentares que votaram o PL 5595/2020 de fato acreditassem que a educação é um serviço essencial porque não lutam pela vacinação acelerada da população? Porque não lutaram e lutam por verbas que venham a melhoras as estruturas físicas das escolas? Por que não lutaram e lutam por medidas que assistissem e assistam professores e alunos com ensino remoto durante a pandemia?

O discurso político de pautar a educação como prioridade e relevante no Brasil é pura hipocrisia e só é usado de quatro em quatro anos na época das campanhas eleitorais, o que sempre foi verdadeiro é a luta secular dos professores. Agora mais do que nunca a luta é legítima e está prevista na constituição brasileira em seu Art. 5º quando legisla que todos são iguais perante à lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida. Nesse sentido, resta aos profissionais da educação a unidade e a resistência para garantir a sua existência. A vida sim, é o bem essencial pelo qual todo ser humano deve lutar.

*Paula Regina da Silva Duarte é professora mestre em Letras; professora da rede estadual de ensino e diretora da juventude do SINTE/Regional.

**As opiniões contidas neste texto não representam necessariamente a opinião do Blog Carol Ribeiro.

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6 Responses to "O genocídio escolar"


  1. Minha gratidão a Carol Ribeiro por amplificar a voz de uma professora que representa as vozes de muitos ante a iminência de uma tragédia já prenunciada pela ciência.

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  2. Excelente artigo, parabéns a professora Paula Duarte pela firmeza de pensamento e coerência do texto.

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  3. Maravilhoso o texto dessa colega brilhante. Certamente, representa nossas angústias.

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  4. Parabéns Paula!!!! Com certeza o texto vai de encontro com o pensamento da grande maioria dos professores e professoras que nesse momento tão difícil só enxerga discurso vazio e sem ações por parte dos legisladores que aprovaram a PL 5595!!!

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